O HOMEM PODE REALMENTE SER DECLARADO JUSTO PERANTE DEUS?
Reafirmamos que
nossa salvação é realizada unicamente pela obra mediatória do Cristo histórico.
Sua vida sem pecado e sua expiação por si só são suficientes para nossa
justificação e reconciliação com o Pai. Negamos que o Evangelho esteja sendo
pregado se a obra substitutiva de Cristo não estiver sendo declarada e a fé em
Cristo e sua obra não estiver sendo invocada[1].
INTRODUÇÃO
SABEMOS QUE ALÉM DE MERECERMOS A
PUNIÇÃO, seria injusto se não fôssemos punidos. Deus não pode varrer os nossos
pecados para debaixo do tapete e simplesmente esquecê-los. Por isso terminamos
com um dilema no último capítulo: “Como pode um Deus justo algum dia sorrir
para nós? Como este fardo de culpa pode ser removido e nos tornarmos justos
diante d’Ele sem que ao mesmo tempo Ele deixe de ser Santo e Justo?”
A
MANIFESTAÇÃO DA JUSTIÇA DE DEUS
O Apóstolo Paulo nos responde em Romanos
3:21-26:
Mas
agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela Lei e pelos
profetas; justiça de Deus mediante a fé m Jesus Cristo, para todos [e sobre
todos] os que creem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da
glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a
redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como
propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua
tolerância, deixados impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista
a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o
justificador daquele que tem fé em Jesus.
Ele afirma que só existe uma única
resposta para esse dilema: Alguém precisou pagar pelos pecados dos pecadores. O
Deus que não inocenta o culpado e que não pode ignorar a sua perfeita justiça
decidiu então aplacar a sua ira em seu Filho colocando sobre Ele o nosso
castigo. A justiça precisa ser satisfeita. Sim, “certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades
[...] o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras
fomos sarados”
(Is 53:4-5). Desta maneira é que somos tidos como justos perante o tribunal de
Deus, apesar de não sermos realmente justos, porque nos apropriamos da justiça
d’Ele como se fosse nossa.
Nos seus dias
Judá será salvo, e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual
Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA. JEREMIAS 23:6
Para
compreendermos bem como essa transação acontece, precisamos considerar a
pequena palavra “imputar”. Ela também é traduzida como “reconhecer”, “contar” e
“considerar”. Podemos começar a entender o que ela significa ao atentar para
uma outra passagem da carta de Paulo a Filemon a respeito do retorno de seu
escravo Onésimo: “Se,
portanto, me consideras companheiro, recebe-o, como se fosse a mim mesmo. E, se
algum dano te fez ou se te deve alguma coisa, lança tudo em minha conta”.(Fl 17-18). Aqui, Paulo
instrui Filemon a “lançar em sua conta” [literalmente, “imputar”] qualquer
débito que Onésimo pudesse estar devendo a Filemon. Essa não era realmente uma
dívida de Paulo, mas Paulo, por sua própria vontade, tomou para si aquele
débito,
e ele foi lançado em sua conta.[2]
É assim então que somos simultaneamente tidos como justos e
pecadores. Poucos sabem, mas Paulo, nesse texto aos Romanos demonstrou que a
justificação é um conceito jurídico e forense, e não literal, e tem o
significado de “declarar justo” o pecador que confessa a sua fé em Cristo.
Nesse ato de Graça, Deus declara justo o pecador, isentando-o de qualquer tipo
de condenação. Isso significa que não são as obras, mas sim a obra de Cristo a única
causa da sua justificação. A justiça do crente é "Extra nos",
ou seja, é proveniente de fora e não de dentro (Iustitia Aliena = Justiça estrangeira).[3].
A JUSTIÇA DE DEUS PELA FÉ EM JESUS
CRISTO
Tendo sido, pois, justificados pela
fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo;
ROMANOS
5:1
Justificação pela fé é aquela que à parte da justiça das
obras, se apropria da justiça de Cristo pela fé, e vestido nela, é visto por
Deus não como um pecador, mas como um homem justo. Portanto nós explicamos
justificação simplesmente como a aceitação com a qual Deus nos recebe em seu
favor como homens justos. E dizemos que ela consiste em nossa remissão de
pecados e na imputação da justiça de Cristo.[4] – João Calvino
É pela fé então que
o pecador se apropria da Justificação. Deus justifica àqueles que têm fé por
imputação. E isso significa que recebemos de
forma instantânea quando cremos no Evangelho toda a justiça proveniente de
Cristo e não apenas uma “fagulha” dela. A justiça de Deus é a justiça de Cristo
(Iustitia Dei é Iustitia Christi). Pela fé, de forma definitiva, Deus não nos vê
agora mais como pecadores, em termos legais, mas nos vê sob a cobertura da
justiça passiva de Cristo. Em outras palavras, nós somos declarados justos, temos
paz com Deus (Rm 5:1), mesmo sem mérito algum em nós mesmos, pois Ele é a nossa
única e suficiente justiça, e isso somente por fé.
DEUS PROPÔS PARA PROPICIAÇÃO
Podemos ver essa
mesma realidade da imputação também no conceito de “carregar os pecados” do
Antigo Testamento (a propiciação[5]). No grandioso
Dia da Expiação, dois bodes eram sacrificados – um derramava seu sangue para
expiar os pecados[6], enquanto o
outro bode (vivo) carregava esses pecados embora para um lugar solitário: “Arão fará chegar o bode sobre o
qual cair a sorte para o Senhor e o oferecerá por oferta pelo pecado. Mas o
bode sobre que cair a sorte para bode emissário será apresentado vivo perante o
Senhor, para fazer expiação por meio dele e enviá-lo ao deserto como bode
emissário”[7]. Aqui Deus
utiliza dois bodes para nos ensinar uma verdade a respeito da obra expiatória
do Senhor Jesus Cristo. Por um lado, ele morre por nossos pecados, e por outro
– como resultado daquela morte - , ele eficazmente leva nossos pecados embora
da presença de Deus.
Perceba a
realidade gloriosa da imputação presente aqui! “Arão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode vivo e
sobre ele confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel, todas as suas
transgressões e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode e
enviá-lo-á ao deserto, pela mão de um homem à disposição para isso. Assim,
aquele bode levará sobre si todas as iniquidades deles para terra solitária; e
o homem soltará o bode no deserto”[8].
Dito isso a
pergunta que cada um de nós deveria fazer a si mesmo é a seguinte: “Será que eu
já pus as mãos da fé sobre o Senhor Jesus Cristo e dei-lhe todos os meus
pecados para que ele os levasse a uma terra solitária?”[9]
JUSTIFICADOS
GRATUITAMENTE
Paulo também diz
no texto de Romanos 3:21-26 outra coisa tremenda: que somos “justificados gratuitamente” pela Graça de
Deus. Ele está sendo no texto bastante redundante de proposito para nos mostrar
que não há algum mérito humano na salvação. A palavra “gratuitamente” no versículo
24 quer dizer literalmente “sem motivo algum”, “sem uma causa”, “livremente”, “em
vão”, “por nada”. É a mesma palavra grega “dôrean”
utilizada em João 15:25 se referindo ao desprezo dos Judeus a Cristo: “Isto, porém, é para que se cumpra a palavra escrita na
sua lei: Odiaram-me sem
motivo.” Portanto a Justificação é um dom, um presente de
Deus.
Graça é o ato que Deus propõe em
nos abençoar sem méritos. Deus é gracioso por essência, ou seja,
bondoso e cheio de misericórdia, de amor e de compaixão. Penso ser um erro, nós
Cristãos, pensarmos que a Graça é apenas uma força que nos levará para o céu. É
como se disséssemos que depois daquele bendito dia (da consumação) não precisaremos
mais dela. Mas o fato é que permaneceremos nos céus por causa da Graça e é lá
que nós a conheceremos ainda mais abundantemente.
Se formos
mais criteriosos e estudarmos a raiz grega da palavra “Graça” no texto
chegaremos á palavra “CHÁRIS”[10] (fonética: “RARIS”) que significa literalmente favor e generosidade.
Nesse conceito a Graça pode ser então definida como um dom gratuito e
sobrenatural dado por Deus para conceber á humanidade a salvação ou todo e
qualquer benefício da vida. Por isso, por um lado ela é universal - todos estão
desfrutando de algum modo de infinitos benefícios imerecidos por meio dos
méritos concedidos na cruz, como o direito de viver, por exemplo (a chamada Graça comum); mas por outro, a Graça habitual ou santificante é aquela Graça específica ou eficaz do Espírito que apenas
é concedida àqueles que aceitam a Cristo pela fé. Portanto, resumindo, a Graça nesse
texto possui pelo menos dois significados:
1.
Um favor imerecido, ato de benevolência que
Deus propõe em abençoar (Rm 3:21-24, Ef 2:1-10); e
2.
Ter valor por estar ao lado de Cristo ou, gozar
de seus imerecidos privilégios, como a salvação (Ef 1:6, Mt 11:29, Rm 8:2)[11].
A REMISSÃO
DOS PECADOS
Outro termo utilizado por Paulo no texto
de Romanos 3:21 á 26 é “Redenção”, que quer dizer “pagamento de preço pela
soltura de escravos” - uma palavra bem utilizada no primeiro século. Isso
significa que para que Deus pudesse nos libertar do poder do pecado,
primeiramente Ele deveria nos redimir da culpa do pecado.
Agora imagine por um momento que você
esteja ao lado de uma barragem de uma represa enorme. O muro que lhe separa
daqueles bilhões de quilos d’água possui cerca de mil metros de altura, e de
repente ele desaba sobre sua cabeça de uma só vez. Mas ao chegar a água a centímetros
de ti uma cratera surge no chão e suga toda aquela água. É isso o que quero
dizer quando falo que Jesus desviou a ira Deus. Ele bebeu do cálice de sua ira
e suportou somente pelo fato de ser Ele o próprio Deus. As montanhas se
derretem diante da ira do Senhor Todo-Poderoso, mas Jesus a suportou por amor a
você[12]!
Jesus com seu sangue aplacou a ira de
Deus que fervia sobre o seu pecado e lhe garantiu para sempre os benefícios de
ser livre da escravidão do mesmo. Hoje os que confessam sua fé no Senhor Jesus
não devem á morte e são livres da condenação e do poder do mal para viver para
a glória de Deus. Como bem disse Pedro: “sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis,
como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que
vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro, sem
defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” (1 Pe 1:18-19).
DEUS É SIMULTANEAMENTE
JUSTO E JUSTIFICADOR
Agora, talvez o mais curioso no texto de
Romanos 3 seja entender os versículos 25 e 26 onde Paulo afirma que Deus propôs
no sangue de Cristo manifestar a sua justiça no tempo presente, por ter Deus na
sua tolerância deixado impunes os pecados anteriormente cometidos, para que Ele
fosse justo e o justificador daqueles que tem fé em Jesus. Aqui, Paulo declara em
bom tom que Cristo morreu para pagar o nosso débito de pecado a fim de que Deus
pudesse “justificar” pecadores ao mesmo tempo permanecer “Justo”.
Ao longo do Antigo Testamento, os
pecados foram meramente “deixados impunes”, o pagamento da culpa sendo
postergado ano após ano, até que viesse o Cordeiro cuja morte os levaria
verdadeiramente embora (ler Hb 10:11). E durante todo esse tempo, parece que
Deus estava sendo injusto, visto que Ele justificou homens como Abraão e Davi
sem que a justiça fosse realmente satisfeita. Portanto era necessário que Cristo
morresse “publicamente” no maior centro religioso do mundo, Jerusalém,
manifestando abertamente a justiça de Deus para que todos a vissem,
satisfazendo-a completamente na cruz pelos pecados cometidos[13].
Se pararmos para pensar um pouco, era
para Eva e Adão morrerem no Jardim, pois Deus disse: “... porque, no dia em que dela
comeres (do fruto), certamente morrerás” (Gn 2:17), era para todos nós neste
exato momento estarmos pagando por nossas culpas, e por isso Jesus manifestou a
sua justiça[14]. Nesse sentido,
Cristo morreu não somente para justificar homens, mas também para “justificar”
Deus. Sua morte na cruz vindicou e manifestou a justiça absoluta do Pai ao
justificar seu povo.
Porquanto o que era impossível à
lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o seu Filho em
semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne;
ROMANOS
8:3
[1]
Declaração de
Cambrigde
[2] Citação de Charles Leiter.
Texto: Pode um Homem Ser Justo Diante de Deus? Disponível em:
http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/866/Pode_um_Homem_Ser_Justo_Diante_de_Deus
[3] A Justificação
é portanto a resposta de Deus sobre como uma pessoa pode se tornar aceitável
diante d’Ele.
[4]
Institutas da Religião
Cristã, III, XI.
[5] Ação ou ritual com que se procura agradar uma divindade, uma
força sobrenatural ou da natureza etc., para conseguir seu perdão, seu favor ou
sua boa vontade. Jesus se tornou protetor e auxiliador de seu povo.
[6]
Lv 16:16
[7]
Lv 16:9-10
[8]
Lv 16:21-22
[9]
Charles Leiter, Justificação e Regeneração, Pg 35-36.
[10] Essa palavra
aparece 158 vezes no NT.
[11]
Em outros textos
encontraremos também o sentido de: Uma capacitação sobrenatural (2 Co 3:2-6, Ef
1:17-19);
[12]
Aquele que deveria
morrer tinha que ser Deus, pois nenhum outro possui o direito da vida em si
mesmo. Jesus a deu espontaneamente.
[13]
Charles Leiter,
Justificação e Regeneração, Pg 38.
[14]
Deus na cruz calou a
boca de Satanás que o acusava.
